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domingo, 6 de junho de 2010

'O mundo salvo'. O novo livro de Alain Touraine

'O mundo salvo'. O novo livro de Alain Touraine

O jornal La Repubblica, 22-04-2009, publicou um trecho do novo livro do sociólogo francês Alain Touraine, intitulado "Il mondo salvato" [O mundo salvo, em tradução livre]. A obra é fruto de pesquisas feitas durante os últimos anos. Segundo Touraine, a nossa sociedade está enfraquecida, e só a consciência feminina pode lhe dar força.

"Parece uma época em que as suas lutas perderam visibilidade. Pelo contrário, eu penso que as mulheres são o motor da história". E afirma também: "Só elas sabem superar os velhos dualismos. O sentido da vida, agora, está sempre mais nas mãos delas". A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Nas nossas sociedades envelhecidas, enfraquecidas e ao mesmo tempo adocicadas, surge com força a exigência coletiva de combater os efeitos negativos da modernização, que criou formas de domínio extremas e destruiu a natureza conquistando-a. Nós procuramos recompor uma experiência coletiva e individual que foi lacerada. Trata-se de restabelecer uma relação entre os termos que as fases anteriores da modernização tinham contraposto uns aos outros: o corpo e a mente, o interesse e a emoção, o outro e o mesmo. É esse o grande projeto do mundo atual, o projeto do qual depende a nossa sobrevivência, como repetem os militantes da ecologia política. Mas quem são os atores dessa reconstrução? Quem ocupa o posto central que foi dos operários na sociedade industrial e, em um passado mais distante, dos comerciantes que destruíram o sistema feudal?

A minha resposta é que são as mulheres quem ocupam esse lugar, porque foram, mais do que outros, vítimas da polarização de sociedades que acumularam todos os recursos nas mãos de uma elite dirigente constituída por homens brancos, adultos, patrões ou proprietários de toda espécie de renda e os únicos que puderam pegar em armas. As mulheres foram consideradas, então, como não-atores, privadas de subjetividade, definidas por meio da sua função mais do que pela sua consciência.

Para verificar essa hipótese, escutei vozes de mulheres, um modo de proceder pouco frequente, porque comumente fala-se de vítimas reduzidas ao silêncio, em vez de pessoas desejosas de fazer com que a sua própria voz seja escutada. O método seguido, que deve ser avaliado tanto pelos seus limites quanto pela sua originalidade, consiste em mostrar que a nova afirmação de si por parte das mulheres está direta e profundamente ligada à inversão cultural. Isso torna as mulheres as atrizes sociais mais importantes, mas tem, como contrapartida, o fato de que a sua ação não apresenta as características típicas da ação dos movimentos sociais, entre os quais se compreendia, em um passado ainda recente, o próprio movimento feminista. Consciência feminina e mudança social não são mais separáveis: as mulheres constituem um movimento cultural mais do que um movimento social.

Foi-me criticado o fato de atribuir uma excessiva importância à consciência feminina justamente no momento em que as lutas feministas já teriam perdido a sua radicalidade e a sua visibilidade. Por que escolher as mulheres como figura central da nossa sociedade, quando as desigualdades crescem, a violência se intensifica em nível internacional, e exércitos e terrorismo se enfrentam? Por que não conceder aos grandes debates políticos a importância que merecem, na medida em que procuram manter juntas a unidade e a diversidade, a inovação e a tradição? No fim das contas, aqueles que, homens e mulheres, refutam, do modo mais completo, o meu modelo de abordagem são justamente os que creem que a dimensão do gênero está, pouco a pouco, perdendo importância na vida social.

(...)

A inversão que nos conduz de uma sociedade de conquistadores do mundo a uma sociedade centrada na construção de si levou à substituição da sociedade dos homens por uma sociedade das mulheres. Não há razão para se pensar que a redução precedente das mulheres em um estado de inferioridade deixe o lugar agora à igualdade. As mulheres têm hoje, com relação aos homens, uma maior capacidade de se comportar como sujeitos. Seja porque são elas que se encarregam do ideal histórico da recomposição do mundo e da superação dos velhos dualismos, seja porque colocam o próprio corpo, o próprio papel de criadoras de vida e a própria sexualidade mais diretamente no centro.

Por um longo período, foram os homens que determinaram o curso da história e que manifestaram uma forte consciência de si. Mas, há algumas décadas já, e por um tempo indeterminado (talvez sem um fim previsível), entramos em uma sociedade e vivemos vidas individuais cujo "sentido" está sempre mais nas mãos, na cabeça e no sexo das mulheres, e sempre menos nas mãos, na cabeça e no sexo dos homens.

Resumindo: o importante é escolher. A categoria das mulheres, dado que não se pode dar uma definição inteiramente social dela, deve ser considerada talvez mais fraca do que uma categoria que tem um significado mais especificamente social, econômico ou cultural? Ou, pelo contrário, é preciso considerar que é necessário colocar as mulheres, entendidas como categoria e ao mesmo tempo como agentes, acima dos grupos sociais reais, dos seus interesses e das suas formas de ação coletiva, mais do que os homens, porque capazes de colocar em discussão os problemas e as orientações fundamentais da cultura?

A primeira resposta foi escolhida por muitos, particularmente pelos marxistas, sobretudo hoje pelos homens e pelas mulheres que defendem o multiculturalismo. Obviamente, eu estou entre os que escolheram a segunda resposta. O universalismo, que entendo como um atributo central da modernidade, é sinônimo de defesa dos direitos individuais e dos resultados da ciência. E a importância fundamental do feminismo é que, além das lutas contra a desigualdade e a injustiça, ele formulou e defendeu os direitos fundamentais de cada mulher, ou seja: o direito de ser um indivíduo livre, guiado pelas próprias orientações pessoais e pelas próprias "capabilities", para usar a fórmula de Amartya Sen que Paul Ricoeur bem traduziu com a expressão "poder ser".

Fonte: Revista Instituto Humanitas Unisinos

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