Pesquisar este blog

domingo, 6 de junho de 2010

Europa à beira de um ataque de nervos

Europa à beira de um ataque de nervos

 Um ano depois de ter sido convocada a apertar os cintos para salvar os bancos, num “esforço coletivo” para impedir que seus países fossem tragados pela maior crise financeira mundial desde 1929, a população europeia está sendo chamada para um novo aperto. Desta vez, para salvar a Grécia e a própria pele. Mas agora é o próprio modelo social que está em questão: as conquistas do pós-guerra. Uma onda de protestos contra reformas e medidas de austeridade está se orquestrando em vários países da zona do euro.

A reportagem é de Deborah Berlinck e publicada pelo jornal O Globo, 30-05-2010.

Trabalhadores gregos, portugueses, espanhóis, mas também italianos e franceses argumentam que já foram forçados a ajudar os bancos, mas que agora os as instituições estão bem, e são eles quem estão, mais uma vez, sendo chamados a pagar a conta.

O que começou como uma crise econômica está virando uma crise política, com partidos e governos sob pressão.

A França não está com a corda no pescoço, como a Grécia. Mas no país cresce o sentimento de insegurança. Annick, uma professora de Matemática, teoricamente a 18 meses da aposentadoria, saiu às ruas de Paris na quinta-feira, desesperada com a possibilidade de que a lei mude e ela tenha que esticar o tempo de trabalho. “Quanto mais a idade da minha aposentadoria se aproxima, mais ela parece se distanciar. Trabalho desde os 17 anos sem parar. Não aguento mais, quero deixar meu lugar para os jovens!”, desabafou ao jornal “Libération”, referindo-se aos planos do governo francês de acabar com a aposentadoria aos 60 anos.

Dezesseis países adotaram o euro — o maior e mais ambicioso projeto econômico e monetário da União Europeia. Mas 11 anos depois de sua criação, o principal objetivo da união monetária não foi atingido: uma Europa econômica e politicamente forte. O continente cresce mais lentamente que outras regiões do mundo, e trabalhadores temem competição de emergentes como China, Índia ou Brasil.

“Não podemos destruir a filosofia original da UE” Esta semana, numa reunião na Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), em Paris, o primeiroministro da Eslovênia, Borut Pahor, que vai ter que pedir emprestado ao mercado C 387 milhões para ajudar a Grécia (cada país da zona do euro, com exceção da Grécia, obviamente, terá de contribuir) queixou-se abertamente que seu país tem de concorrer com Brasil, China e Índia, “países onde a dimensão social não é tão importante” e que “não têm os mesmo valores que nós (europeus)”. Ele disse que a Eslovênia vai fazer duras reformas, mas insistiu:

 — Nós não podemos destruir a filosofia original da União Europeia.

A insatisfação nas ruas pôs a classe política europeia contra a parede. Nicolas Sarkozy, impopular, viu seu partido de direita, a UMP, ser derrotado em praticamente toda a França nas eleições regionais de março por uma coalizão de partidos de esquerda que bradou o mesmo discurso: a de que a vida dos franceses está pior.

— Não são só os trabalhadores que têm de fazer o esforço — avisa o recém-eleito conselheiro regional Eduardo Sypel, do triunfante Partido Socialista.

Em Portugal — outro país com a corda no pescoço — o governo socialista de José Sócrates anunciou cortes no seguro desemprego e outras ajudas sociais. E enfrenta a fúria sindical.

— Não é ficar pior agora para depois ficar melhor. Aqui tratase, por parte do governo, de fazer pior para ficarmos pior — reagiu Jerônimo de Souza, o dirigente do Partido Comunista, que está organizando as greves junto com os sindicatos.

A reação furiosa de gregos nas ruas de Atenas — três pessoas morreram em protestos violentos na cidade este mês — levou à consciência, entre os sindicalistas europeus, de que a crise é para valer. Mas muitos acham que paralisar os países em protestos infindáveis só terá um efeito: fazer todos afundarem.

O inglês John Monks, que comanda a Federação Europeia de Trabalhadores no Comércio, representando 82 confederações sindicais do continente, diz que a pílula do aperto e das reformas está dura de engolir não apenas na Grécia, mas em todos os 27 países da União Europeia.

Com exceção dos que estão no topo da pirâmide salarial, diz, o salário médio dos europeus não aumentou nos últimos anos. E são eles quem sempre pagam a conta: o nível de desemprego em alguns países, como a Grécia, chegou a 20%, com os jovens, sobretudo, sendo penalizados.

Líder sindical quer austeridade de curta duração

Nos países do norte da Europa — Islândia foi um exemplo — quando a crise bate, é mais fácil unir as pessoas, de trabalhadores a empresários, para combatêla, diz Monks. Mas nos países como Espanha, Portugal e Grécia, que passaram por longas ditaduras, “é mais difícil”.

— Os países do Leste Europeu, que já passaram por dificuldades maiores, aguentam o tranco mais facilmente.

Por isso ele não vê e nem defende uma revolução nas ruas.

Não há saída, segundo Monks: trabalhadores europeus vão ter de engolir uma dura pílula no esforço para tirar seus países do buraco. Mas sob uma condição: que seja de curto prazo.

— Estamos buscando que sindicatos, se puderem, sejam envolvidos nos planos de salvamento e recuperação — afirma Monks.

— Se temos de sofrer no curto prazo, o que forçosamente temos, que pelo menos tenhamos compromissos de ganhos no longo prazo.

Rejeição ao modelo dos “ricos cada vez mais ricos”

O sindicalista inglês diz que trabalhadores europeus não querem mais o modelo dos últimos 20 anos, em que “os ricos ficaram mais ricos e o fosso entre ricos e pobres aumentou”.

— Desta vez, queremos o compromisso de que teremos uma sociedade mais equânime. Primeiro, alguém vai ter de coletar os impostos dos ricos e dos que estão confortáveis hoje, para se certificar de que eles paguem sua parte na fatia.

A própria OCDE está preocupada com a reação nas ruas que as reformas e o aperto de cinto podem provocar. A organização está finalizando um estudo em 10 países que passaram por duras reformas para mostrar os erros dos que falharam em convencer a população e os acertos dos bem-sucedidos. Segundo o economista-chefe da organização, Pier Carlo Padoan, quem conseguiu apoio popular — como os alemães, com sua impopular reforma trabalhista, ou os italianos, com reforma das aposentadorias dos anos 90 — seguiu pelo menos duas regras.

Primeiro: investimento pesado na comunicação com a população para construir consenso. Depois, criação de mecanismos para compensar os perdedores, geralmente mais numerosos que os ganhadores no início das reformas.

Mas como convencer alguém que tem de trabalhar mais na vida para ganhar menos?

 — Dizendo: se você não fizer isso agora, vai ser pior depois — sentencia Padoan

Fonte: Revista Instituto Humanitas Unisinos

Nenhum comentário: