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domingo, 6 de junho de 2010

A elite e a oposição à mudança. Entrevista com Alain Touraine

A elite e a oposição à mudança. Entrevista com Alain Touraine


"A crítica das elites é muitas vezes expressão do populismo e do seu tradicional discurso que contrapõe um povo não mais bem definido a uma elite intelectual, apresentada sempre como privilegiada, distante da vida real e escondida atrás de um muro de especialismos".

O sociólogo Alain Touraine marca assim um discurso hoje muito difundido na Itália, assim como na França e ao mesmo tempo alerta contra o uso impróprio de um termo muito ambíguo desde sempre: "No discurso corrente, a palavra 'elite' é frequentemente usada de modo vago, criando confusão evidentemente. No âmbito da sociologia, o uso, introduzido pelos estudiosos italianos, é mais rigoroso. Para os sociólogos, uma elite é um grupo de pessoas que favorece e dirige a mudança em um determinado país. Porém, a elite deve ser diferenciada da classe dirigente, que, pelo contrário, é a que estruturalmente domina e governa um sistema político. Quando se fala de elite dentro de um país, significa que a classe dirigente, por si só, não é mais capaz de endereçá-lo rumo ao futuro. No século XX, não faltam exemplos de elites restritas que marcaram mudanças importantes em seus países. Por exemplo, os primeiros maoístas que levaram a China para a libertação do Guomindang e a instauração do comunismo. As elites são também aquelas que, muitas vezes, se opuseram ao totalitarismo. Não por acaso, lembra-se frequentemente da elite antinazista na Alemanha dos anos 30. Mas no senso comum a palavra, até um certo ponto, começou a mudar de sentido, indicando quem quer ficar ancorado no passado, em nome de um sistema de valores e de privilégios que se contrapõe a um modelo em devir. Por isso, há uma certa confusão".

A reportagem é do jornal La Repubblica, 08-10-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Por que na França se fala muitas vezes de elite de Estado?

São os altos funcionários do Estado que geriram e realizaram a reconstrução da França depois da Segunda Guerra Mundial. É a elite administrativa selecionada nas melhores escolas da república, como a Ena [Ecole Nationale D'Administration] ou a Polytechnique, que dominaram o país no pós-guerra. Hoje, na França, está surgindo uma nova elite, a dos "bobos", os bourgeois-bohèms. Estes possuem um bom nível de renda e de cultura, mas não são reconhecidos na sociedade dominada pela economia e pelo mercado. Consequentemente, muitas vezes sofrem as críticas da elite econômica.

Uma elite que combate uma outra elite?

Na democracia, isso às vezes acontece. Só que, quando uma elite começa a atacar uma outra elite emergente, significa que a primeira perdeu a sua força inovadora. E para procurar conservar os seus próprios privilégios, apoia-se na classe dirigente e na burocracia de Estado. Mas quem quer impedir uma mudança não é mais uma elite. No passado, sempre foi assim. As velhas elites da oligarquia e da aristocracia colocadas em discussão pelos movimentos de massa do século XX, para sobreviver, se aliaram com a burguesia triunfante, comportando-se exatamente como o célebre leopardo de Tomasi di Lampedusa.

Por que hoje a desconfiança com relação às elites está difundida?

A desconfiança não é com relação às elites, mas com relação às incertezas do futuro. As elites promovem as mudanças futuras, portanto dão medo a todos os que preferem o imobilismo. É nesse contexto que se desenvolve o clássico discurso populista de quem quer desacreditar as elites, procurando contrapô-las ao povo. Na Itália, é um discurso que foi muitas vezes utilizado por uma classe dirigente relativamente frágil desde sempre.

Fonte: Revista Instituto Humanitas Unisinos

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