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sábado, 14 de novembro de 2009

Antropologia estética

Antropologia estética

Juliano Gadelha
especial para O POVO

Sempre a frente do seu tempo, Claude Lévi-Strauss foi pioneiro no segmento de pensamento antropológico a defender os estudos da arte nas sociedades tribais

Nem todas as sociedades partilham de uma mesma noção de arte. Uma discussão infindável dentro da antropologia da arte corresponde exatamente em saber o que elencar como arte. Para entender um objeto como artístico, Marcel Mauss pressupõe a arte como uma busca pelo belo, pautada em noções de ritmo, equilíbrio e contraste, resgatando da filosofia clássica a ideia da estética como uma ciência do sensível. Mas a visão da arte sujeita ao belo não faz mais sentido visto que a própria arte contemporânea não se submete a tal sujeição. O surrealismo, o cubismo e o expressionismo há tempos desconstruíram noções de ritmo e equilíbrio. E a arte conceitual veio nos livrar dos vícios da fruição estética, mostrando que o conceito prevalece sobre a forma e o movimento.
Para Lévi-Strauss, “uma obra de arte é signo do objeto e não uma reprodução literal; manifesta algo que não estava imediatamente dado à percepção que temos do objeto e que é sua estrutura, porque a característica específica da linguagem da arte é que existe sempre uma homologia muito profunda entre a estrutura do significado e a estrutura do significante (...) ao significar o objeto o artista consegue elaborar uma estrutura de significação que mantém uma relação com a estrutura mesma do objeto”. Mas, afinal, o que Lévi-Strauss denomina estrutura?
Segundo o autor, para que um fenômeno possa ser considerado como estrutural, ele deve atender a quatro pontos básicos. Primeiro, deve ser de caráter sistemático, ou seja, um modelo no qual qualquer modificação acarrete transformações gerais. Segundo, cada modelo deve pertencer a um grupo de transformação de modo que cada transformação corresponda a um modelo da mesma família. Terceiro, de acordo com essas duas primeiras propriedades, o modelo deve permitir uma previsibilidade sobre si mesmo. Finalmente, o modelo deve ser construído de forma a explicar todos os fatos observados.
Para Lévi-Strauss, a estrutura é de cunho inconsciente e os sujeitos nativos da mesma não possuem conhecimento sobre o todo funcionamento dela. Caberia ao pesquisador decifrar a estrutura que existe por trás dos modelos em que vivem os sujeitos. O autor, assim, como os pensadores evolucionistas, os quais ele tanto criticou, estar preocupado em saber como age a mente humana, em conhecer quais seriam os “germes elementares” do pensamento. Nessa busca, as relações sociais passíveis de serem enquadradas como modelos, os quais são sempre de caráter abstrato, constituiriam as variantes que permitiram chegar a invariante (a estrutura). “As relações sociais são a matéria prima empregada para a construção de modelos que tornam manifesta a estrutura social”.
Para o estruturalismo, os modelos podem ser conscientes ou inconscientes, conforme o nível onde funcionem, sendo que “os modelos conscientes estão entre os mais pobres que existem, por causa de sua função que é a de perpetuar as crenças e os usos”. Apesar de todos os modelos poderem ser mutáveis as transformações nos mesmos não acarretam qualquer modificação na estrutura. Como já citado anteriormente, a estrutura é sempre invariável.
No estruturalismo, “a arte é um guia, um meio de instrução, quase que de aprendizagem da realidade ambiente”. A arte supõe, nesse sentido, ao mesmo tempo um saber e uma reflexão. Assim os objetos artísticos estão envoltos em modelos, modos de significação. O antropólogo francês estava preocupado em demonstrar que a estética, enquanto capacidade de atribuir valores a matéria, é uma comum a todos grupos humanos e que nenhum desses grupos seria mais ou menos evoluído do que outro no que tange a tal capacidade. Além disso, a arte seria um excelente objeto de estudo para antropologia estrutural uma vez que tal capacidade seria permeada por modos de significação que variam de uma cultura para outra. Em épocas que as Ciências Sociais fazia vista grossa para as análises estéticas, Lévi-Strauss radicaliza a etnoestética maussiana, a qual foi o primeiro segmento de pensamento antropológico a defender os estudos da arte nas sociedades tribais.
Contudo, para o autor haveria uma diferenciação da arte ocidental frente a dita arte “primitiva”. Enquanto a primeira privilegia a representação, a segunda, ao invés, de reproduzir modelos age como um sistema de signos que tem a função de comunicar. Haveria ainda outro elemento de diferenciação o qual repousaria no fato da recepção do objeto de arte ocidental ser mais individualizada enquanto nas sociedades “primitivas” seus objetos artísticos são esperados pelo grupo social segundo códigos e valores culturalmente compartilhados.

>> JULIANO GADELHA é mestre em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará e pesquisador do Laboratório de Antropologia e Imagem (LAI).

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