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quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Antropologia e história: Uma troca de olhares

Antropologia e história: Uma troca de olhares

Jorge Carvalho para CINFORM

Ninguém questionaria seriamente nos dias atuais a necessidade do diálogo entre a Antropologia e a História. A força desse diálogo aparece no impacto da Antropologia sobre a História, principalmente quando a primeira faz com que esta última entenda a importância das diferenciações.

Do mesmo modo que a importância de uma pesquisa antropológica não depende - como diria Malinowski - da relevância da tribo ou comunidade estudada, mas sim dos resultados mais gerais que se podem extrair de uma pesquisa, o estudo de um moleiro perseguido pela Inquisição ou de um grupo de heréticos será ou não relevante, dependendo das relações que houver entre ele e elementos mais gerais. (PALLARES-BURKE, Maria Lúcia Garcia. As muitas faces da história. Nove entrevistas. São Paulo, Editora UNESP, 2000:94).

Antropologia e História são pensadas hoje, efetivamente, como disciplinas que mantêm relações necessárias e excludentes, com afastamentos e aproximações, porém cada uma com uma história que lhe é muito própria. Ambas preocupadas com o desvendamento da própria sociedade que as concebeu.

A Antropologia, tantas vezes dita ‘filha do colonialismo', se começou por calcionar os ideais societários europeus, tem permitido que a ‘linha típica' e modelar do desenvolvimento mediterrâneo, ainda muito imbricada nas teorias sociológicas e na cronologia ideal que a historiografia reifica ao dar suporte aos curricula mínimos da educação primária e superior seja desnaturalizada (LIMA, Antônio Carlos de Souza & VIANNA, Adriana de Resende Barreto. "História, Antropologia e relações de poder - algumas considerações em torno de saberes e Fazeres sobre o social", in MALERBA, Jurandir (Org.). A velha história. Teoria, Método e historiografia. Campinas, SP, Papirus, 1996:128).

Em seus primórdios, a Antropologia estabeleceu-se como sendo uma disciplina de caráter global que conseguia reunir ademais dos traços biológicos fortes características históricas e sócio-culturais. Seu olhar estava completamente dirigido ao passado, face às suas fortes relações com a Arqueologia. Todo o sortilégio de especulações a respeito da cultura e da vida social dos humanos se esgotava na biologia, na condição de ser natureza do homem, reduzindo toda a cultura a um problema biológico ou climático. As diferenciações tinham o caráter meramente geográfico ou, no máximo, racial. Assim era possível entender todo e qualquer comportamento, fosse ele criminal ou simplesmente desviante - para usar uma linguagem ao gosto da Antropologia do início do século XX.

O que se convencionou chamar progresso ou atraso de um povo estava dado pela raça e pelo clima. Vale mencionar, para o caso brasileiro, dois importantes antropólogos do século XIX: o Conde de Gobineau, que discutiu com o Imperador Pedro II as enormes desvantagens de uma população mestiça e negra que inviabilizava a modernização do país; ou, a posição de Louis Agassiz, professor da Universidade de Harvard, que fez previsões extremamente pessimistas para o Brasil:

A mistura de raças era um grave perigo a ser evitado, provocando demora na formação da raça pura, que deveria ser a verdadeira espinha dorsal da nação.( DA MATTA, Roberto. "Antropologia", in SILVA, Benedito (Coord.). Dicionário de Ciências Sociais. Rio de Janeiro, Editora da Fundação Getúlio Vargas, 1986:58).

Em linhas gerais, assim foi o discurso da Antropologia até a sua modernização nas primeiras décadas do século XX, trabalho de antropólogos como Franz Boas, Malinowski e Radcliffe-Brown. O caso de Franz Boas é particularmente importante para as ciências humanas brasileira, em face da enorme importância que este exerceu sobre o pensamento de Gilberto Freyre, a quem orientou na Universidade Colúmbia, em Nova York, antes que o brasileiro escrevesse o clássico Casa Grande e Senzala. Hebreu imigrado para o Estados Unidos, Boas fazia uma Antropologia criteriosa, exaustiva, sempre assustado com o fantasma de Lewis Morgan. Etnólogo norte-americano dos mais acurados, Morgan sofreu um grande processo de discriminação depois de reconstituir em Ancient Society as etapas evolutivas das sociedades humanas, inspirando-se na evolução das espécies de Darwin. Toda a carga de preconceito e de ódio dos antievolucionistas e contra-revolucionários que habitavam o universo do liberalismo norte-americano foi lançada contra Morgan depois que seu livro foi reescrito por Engels com o título de Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado.

Sucesso editorial, o livro de Engels serviu para que muitos líderes operários comunistas vaticinassem o próximo epílogo do capitalismo e da propriedade privada. Discípulo de Morgan, Franz Boas encolheu-se e passou a trabalhar com seus alunos, assumindo uma postura de extrema discrição e zelo no discurso antropológico, buscando sempre se afastar de generalizações e teorizações mais ousadas e escondendo-se do evolucionismo. Manteve, contudo, uma forte oposição ao racismo e ao colonialismo próprios da Antropologia européia. Como alternativa a ela, buscou um culturalismo que se opôs às teorias evolucionistas mas que também exacerbou o seu relativismo. Foi com Franz Boas que Gilberto Freyre entusiasmou-se com a etnografia e realizou os seus estudos reunindo uma vasta documentação; também aprendeu a contestar as generalizações deterministas.

O quadro geral que os antropólogos conheceram na primeira metade do século XX foi o da incorporação da influência exercida por Durkheim e a necessidade de interpretar sociedades que se transformavam radicalmente. Tom Bottomore indica que desde o início da década de 1960 houve, na verdade, um desenvolvimento notável da antropologia marxista, que assumiu duas direções principais. Na América do Norte surgiu uma antropologia dialética radical que rejeita a distinção entre ‘primitivo' e ‘civilizado' em termos de inferior e superior, vê a antropologia como uma busca do ser humano ‘natural' e atribui ao antropólogo o papel de um crítico permanente de sua própria civilização.(...) A segunda vertente importante da recente antropologia marxista é a dos estruturalistas franceses, cujas idéias foram modeladas em parte pela antropologia estruturalista de Lévi-Strauss e, em parte, pelos escritos metodológicos de Althusser. (BOTTOMORE, Tom (Org.). Dicionário do pensamento marxista. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1988:12-13).

Na verdade, as preocupações e as pressões em favor da descolonização muito contribuíram para que o estruturalismo se desenvolvesse. O discurso da Etnologia estava descobrindo o interesse que as outras civilizações apresentam. A descoberta do outro possibilitava transformar a relativização do eurocentrismo em verdade humana. A Antropologia já conseguira, bem antes disso, romper com o paradigma biologista ou racista - apesar das dificuldades para supera-lo e eventualmente ainda ouvir-se uma ou outra voz queixar-se das três raças tristes que constituíram o Brasil, responsabilizando-as pelas mazelas sociais. Mesmo porque, até quase a metade deste século boa parte das discussões sobre sociedade e cultura nas Américas girava em torno da questão racial, atribuindo-se a algumas raças supostamente "puras" a capacidades de desenvolver mais atividades que levam ao desenvolvimento social, enquanto outras raças eram acusadas de rejeição da ordem, do progresso, do civismo, enfim daquilo que era tido como organização.

A escala evolucionária adotada ia dos que se diziam mais adiantados aos mais atrasados; dos países brancos da Europa Ocidental aos países mestiços das Américas. Discurso que, de resto, servia para justificar algumas posições políticas que buscavam, através de medidas autoritárias, exercer o controle social. O certo é que a abordagem estruturalista possibilitou a antropólogos como Godelier a distinção entre os métodos funcionalista, estruturalista e marxista, produzindo a crítica ao funcionalismo pelo seu empirismo, pela noção de interdependência funcional que exclui problemas de causalidade e pela concepção de equilíbrio; o próprio estruturalismo de Lévi-Strauss foi criticado pela sua concepção da História como uma mera sucessão de fatos acidentais; e, por fim, fazendo o elogio do marxismo ao qual atribuiu o reconhecimento da existência de estruturas reais.

Ainda no século XIX a Antropologia dividira-se em Antropologia Física e Antropologia Biológica. A primeira dedicava-se a medir estaturas, índices cranianos e faciais, buscando classificar as raças; a segunda preocupava-se com a biologia animal, sociologia animal, evolução biológica do homem, o estudo genético das populações. Foi através desse processo que se iniciou a separação entre homem e natureza, alterando-se a própria concepção de espécie que passou a admitir as variações genéticas dentro de uma mesma população. Cada vez mais eram feitas aproximações daquilo que viria a constituir-se em Antropologia Cultural.

Essa separação entre antropologia biológica e antropologia cultural (ou social) foi muito importante. Ela exprime, sem dúvida, a descoberta da cultura (e da sociedade) como fenômenos humanos singulares, dotados de lógica e autonomia próprias, que poderiam variar independentemente do plano biológico ou geográfico. (DA MATTA, 1986:58).

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