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domingo, 6 de junho de 2010

Ciclo de Filmes e Debates - Trabalho no Cinema

Ciclo de Filmes e Debates - Trabalho no Cinema

Apresentação
 
As profundas transformações que ocorreram e continuam ocorrendo no mundo do trabalho e dos trabalhadores impactam as diferentes áreas e dimensões da existência humana. Desde as situações particulares, de cada trabalhador e trabalhadora e suas relações, até a sustentabilidade do planeta.

Estas transformações apontam para o desmantelamento do pleno emprego e para a necessidade de se (re)pensar o que é e como se configura o trabalho na sociedade atual.

Desse modo, o Ciclo de Filmes e Debates - Trabalho no Cinema busca interpretar e discutir o modo como o cinema tem olhado para o trabalho, entendendo o cinema para além das margens do negócio e da diversão, apontando possíveis contribuições para a superação da crise da sociedade do trabalho.
   
Realização
 
Início: 28 de março de 2007 
Término: 14 de novembro de 2007 
Dias: 28/03, 04/04, 09/05, 13/06, 15/08, 12/09, 03/10 e 07 e 14/11
Horário: 19h15min às 22h15min
Duração: 27 horas 
Local: Sala 1G119 - Instituto Humanitas Unisinos - IHU
Av. Unisinos, 950 – São Leopoldo - RS

Objetivo
 
Objetivo geral

Promover, com base em obras cinematográficas, uma reflexão crítica quanto às transformações ocorridas nas últimas décadas no mundo do trabalho e dos trabalhadores, buscando contribuir para a superação da crise da sociedade do trabalho.

Objetivos específicos

- Refletir sobre eventos importantes para o mundo do trabalho e dos trabalhadores, a linguagem cinematográfica;
- analisar as transformações do mundo do trabalho, buscando entender a crise que o envolve atualmente;
- entrelaçar a visão acadêmica e a visão cinematográfica a respeito ao mundo do trabalho;
- contribuir, por meio das reflexões, para a construção de novos paradigmas relacionados ao trabalho, que possam garantir renda a todos e todas, favorecer novas sociabilidades e criar laços sociais para além do assalariamento.

Público-alvo

Professores, funcionários e estudantes da Unisinos, assim como diversos públicos da região metropolitana de Porto Alegre.

Fonte: Revista Instituto Humanitas Unisinos

Ciclo de Estudos Fundamentos Antropológicos da Economia

Ciclo de Estudos Fundamentos Antropológicos da Economia

Apresentação
O evento Fundamentos Antropológicos da Economia foi idealizado com a finalidade de compreender a atual forma mercantil de organização social e buscar outras possibilidades para isto. A fim de pensar essa questão, buscam-se subsídios nas obras de autores selecionados para esta primeira edição do Ciclo de Estudos - Fundamentos Antropológicos da Economia, como: Saint-Simon, Fourier, Owen, Mandeville, Smith, Polanyi, Dumont, Hirschman, Debord e Caillé.
   
Realização
Início: 21 de março de 2007 
Término: 31 de outubro de 2007 
Dias: 21/03, 11/04, 16/05, 06/06, 29/08, 26/09 e 17 e 31/10
Horário: 19h30min às 22h
Duração: 20 horas 
Local: Sala 1G119 - Instituto Humanitas Unisinos - IHU
Av. Unisinos, 950 – São Leopoldo - RS
   
Objetivo geral

Compreender a atual forma mercantil de organização social e buscar outras possibilidades para isso.

Objetivos específicos
- estudar as diversas teorias que fundamentam a atual forma de organização social e econômica;
- entender a economia como ciência moral e política;
- questionar se a soma dos interesses individuais pode ter como resultado o interesse geral;
- fundamentar o surgimento da sociedade de mercado na atual forma de organização humana;
- debater a forma como a terra, o trabalho e o dinheiro são transformados em mercadoria no capitalismo;
- identificar as instituições e os interesses que geraram "a grande transformação" de nossa época.
   
Público-alvo

Comunidade acadêmica da Unisinos e público em geral

Fonte: Revista Instituto Humanitas Unisinos

A economia e a sociedade estão a serviço das finanças e do capitalismo financeiro

‘A economia e a sociedade estão a serviço das finanças e do capitalismo financeiro’, afirma economista francês
Por trás da crise estão o domínio das finanças e a especulação acima dos Estados, a perda do poder político frente ao financeiro, a consequente degradação da democracia, os déficits e a pobreza.

A reportagem e a entrevista são de Eduardo Febbro e publicadas no jornalPágina/12, 28-05-2010. A tradução é do Cepat.

Dominique Plihon previu o desastre. Este economista francês, presidente do Comitê Científico da Attac e especialista dos sistemas financeiros, sintetizou num livro de antecipação econômica a catástrofe que tomou conta da economia mundial e que derivou nas duas crises do século XXI: a de 2008 e a de 2009/2010, com seu epicentro na Europa. Seu livro O novo capitalismo ofereceu há quase dez anos um retrato sintético das transformações que estavam em curso no interior do capitalismo, ao mesmo tempo que esboçou o rumo que essas transformações o fariam tomar: o domínio das finanças e a especulação acima dos Estados, a perda do poder político frente ao poder financeiro, a consequente degradação da democracia, o aumento dos déficits, a dívida e a pobreza. Reeditado no ano passado e atualizado com novas análises, o livro de Dominique Plihon segue sendo uma bíblia pertinente e detalhada sobre os estragos de um sistema financeiro onde impera a impunidade e o apetite de dominação. As finanças acabaram fagocitando todos os campos: o conhecimento, a política e o social.

As mutações tecnológicas – as novas tecnologias – e a globalização financeira são os dois sinais concretos das novas formas de dominação do capitalismo. Contudo, a profunda crise que o afeta veio para quebrar o consenso com o qual essa forma do capitalismo havia crescido até agora. Este especialista em economia financeira, professor naUniversidade de Paris XII e autor de vários livros sobre os mecanismos e os operadores do capitalismo, analisa nesta entrevista a fratura do sistema e a necessidade de regulá-lo. Dominique Plihon, que esteve na Argentina durante a crise de 2001, vê na resposta que a sociedade argentina deu a essa crise formas originais que podem servir para a crise global de hoje.

Eis a entrevista.

Como acabar com a hecatombe do sistema financeiro, que é, por sua vez, um sintoma de sua loucura?

Estamos na presença de uma crise global do capitalismo. O principal detonante desta crise radica no fato de que o regime de crescimento que se instaurou com a globalização está em crise. Hoje estamos na parte financeira da crise, estamos vivendo uma crise da dívida, uma crise da dívida privada das empresas e das pessoas, e uma crise da dívida pública, dos Estados. Nos Estados Unidos, ou em países da Europa como Espanha, Itália, França, Grécia ou Grã-Bretanha, esta crise se explica pelo estancamento do poder aquisitivo dentro da nova partilha das riquezas. As pessoas mais pobres tiveram que se endividar massivamente para continuar vivendo. E, através de uma série de mecanismos complexos, a crise financeira se estendeu pela ausência de controle. As autoridades não fizeram o suficiente para regular as finanças e isso derivou numa crise profunda das finanças, dos bancos e dos atores financeiros. O aumento brutal da dívida pública se explica em grande parte pelo fato de que os governos tiveram que substituir os atores privados para assumir suas dívidas. A crise da dívida obriga os governos a implementar políticas duras, em particular na Europa, onde temos uma crise muito perigosa e muito profunda. O grande erro que os governos europeus estão cometendo hoje consiste em levar a cabo de maneira conjunta e sem coordenação políticas orçamentárias e fiscais muito restritivas. Isto conduzirá a Europa à deflação e, por conseguinte, ao agravamento dos desequilíbrios. Teremos que contar com pelo menos 10 anos de crise. A crise é tanto mais profunda quanto que o capitalismo é vítima de suas contradições internas. O capitalismo não pode seguir funcionando assim; tornou-se insustentável. É preciso encontrar novas formas de regulação que necessitarão de tempo.

Você descreve um capitalismo esgotado. Não obstante, há hoje uma característica inaudita: o capitalismo inaugurou a era do crime sem castigo. Os grandes responsáveis pela crise estão livres, com lucros alucinantes. Em suma, os operadores da ruptura gozam de mais privilégios que antes.

Efetivamente. Por isso também estamos atravessando uma crise da política, uma crise da democracia. Hoje, aqueles que decidem e tomam as decisões são os grandes atores financeiros, os lobbies financeiros. Os grandes bancos, os grandes atores, detêm um poder tal, têm uma potência financeira e política de tais dimensões, que impedem que os governos façam autênticas reformas. Os governos estão capturados pelos lobbies financeiros. Isto é válido nos Estados Unidos, na Europa, na Argentina ou no Japão.

Paralelamente a esta realidade, a gestão da crise por parte do poder político é inteiramente oral, isto é, televisiva. Grandes declarações, megacúpulas como as do G-20, mas, na realidade, nenhuma medida chega a se plasmar contra esses lobbies financeiros. Como regular então em um sistema semelhante?

É preciso desarmar os mercados, isto é, recuperar o poder que está nas mãos das finanças para dar contornar a situação. A economia e a sociedade estão hoje a serviço das finanças e do capitalismo financeiro. É preciso que ocorra o contrário: as finanças devem estar a serviço dos cidadãos e da sociedade. Devemos estabelecer novas formas de controle do sistema financeiro. Controlar que dizer várias coisas: em primeiro lugar, tomar o controle da gestão dos bancos, das decisões. Para isso é preciso socializar o sistema bancário e proibir que determinados atores realizem determinadas operações. Por exemplo, teria que se proibir os hedge funds, suprimir os paraísos fiscais e implementar novos instrumentos, como a ideia de aplicar taxas globais sobre as transações financeiras. Isso permitiria lutar contra a especulação e, ao mesmo tempo, arrecadar recursos para colocar em prática novas políticas.

Como realizar um projeto semelhante quando sabemos que, por exemplo, a maior praça financeira mundial offshore não são as Ilhas Caiman, mas Londres, ou seja, o coração do sistema financeiro internacional? Em Londres são administrados 70% dos fundos especulativos europeus.

É um verdadeiro problema. Como os governos são reféns dos meios financeiros, é preciso fazer uma aliança. Falta instaurar uma nova relação de forças mediante uma aliança entre os movimentos sociais, a sociedade civil, as organizações sindicais, as organizações de defesa dos consumidores e certas forças políticas de esquerda que estão dispostas a lutar e cortar esse sistema. Não haverá mudanças se não se instaurar uma relação mínima de forças políticas. E isto deve se fazer a nível internacional. É preciso coordenar os movimentos sociais dos diferentes continentes. Esse é o único meio para obrigar os governos e os meios financeiros a mudarem. Do contrário tudo seguirá igual.

Você se opõe à ideia desenvolvida por Toni Negri segundo a qual a economia imaterial, isto é, a internet e todos os seus derivados, pode se converter em um aliado desse contrapoder social internacional que você descreve.

Tenho uma postura crítica em relação à tese de Toni Negri. Ele crê que graças às novas tecnologias vamos criar um novo mundo e sair do capitalismo. Não creio nisso. Eu digo no meu livro que as novas tecnologias permitem novas formas de organização, começando pela comunicação através da rede, de todos os atores da mundialização. Pode então ser utilizada como um meio de fazer circular a informação e de organizar-se para ganhar novos espaços democráticos de debate, e coordenar as ações contra esses adversários que são os atores financeiros, os políticos e os governos aliados com esses atores. Aí há uma possibilidade, mas não é suficiente.

Contudo, acaso podemos esperar que essa crise abra novos métodos de ação?

Sim. A crise pode ser uma oportunidade, uma ocasião para contornar a relação de forças. A opinião pública, os governos, são muito críticos diante de um mundo das finanças. As pessoas estão dispostas a apoiar medidas radicais e é preciso articular uma nova forma de organização a fim de fazer o laço entre as opiniões públicas. Esse é o trabalho que temos pela frente, mas é uma tarefa difícil porque deve ser levada a cabo a nível internacional, no marco da globalização. Essa é o único caminho para sair disto.

Você esteve na Argentina no momento da crise de 2001. Sei que encontrou, na maneira como a sociedade argentina enfrentou essa crise, respostas adequadas para a hecatombe atual. Quais são?

Entre as muitas coisas que vi na Argentina nessa época há duas que me parecem interessantes. A primeira é o controle das empresas por parte dos assalariados: o fato de que os empregados e inclusive os habitantes dos bairros foram capazes de se assumir para tentar reorganizar a produção e o funcionamento dos bairros. Esses embriões de autogestão e de controle popular são importantes e são chamados a se desenvolver em períodos de crise.

A segunda coisa que achei interessante diz respeito à moeda. Achei muito importantes as novas formas de organização monetária, as moedas paralelas, que se puseram em circulação para substituir a moeda nacional, que passava por um momento de grande dificuldade, com um sistema bancário que havia ido à bancarrota. A experiência argentina foi interessante pelo que aconteceu com a moeda e com as moedas como forma de organização social alternativa. Essa experiência pode contribuir para reativar o que na França se chama de relocalização. Para lutar contra a globalização é preciso relocalizar a atividade, é preciso recriar a democracia a nível local e regenerar a vida


Fonte: Revista Instituto Humanitas Unisinos

Europa à beira de um ataque de nervos

Europa à beira de um ataque de nervos

 Um ano depois de ter sido convocada a apertar os cintos para salvar os bancos, num “esforço coletivo” para impedir que seus países fossem tragados pela maior crise financeira mundial desde 1929, a população europeia está sendo chamada para um novo aperto. Desta vez, para salvar a Grécia e a própria pele. Mas agora é o próprio modelo social que está em questão: as conquistas do pós-guerra. Uma onda de protestos contra reformas e medidas de austeridade está se orquestrando em vários países da zona do euro.

A reportagem é de Deborah Berlinck e publicada pelo jornal O Globo, 30-05-2010.

Trabalhadores gregos, portugueses, espanhóis, mas também italianos e franceses argumentam que já foram forçados a ajudar os bancos, mas que agora os as instituições estão bem, e são eles quem estão, mais uma vez, sendo chamados a pagar a conta.

O que começou como uma crise econômica está virando uma crise política, com partidos e governos sob pressão.

A França não está com a corda no pescoço, como a Grécia. Mas no país cresce o sentimento de insegurança. Annick, uma professora de Matemática, teoricamente a 18 meses da aposentadoria, saiu às ruas de Paris na quinta-feira, desesperada com a possibilidade de que a lei mude e ela tenha que esticar o tempo de trabalho. “Quanto mais a idade da minha aposentadoria se aproxima, mais ela parece se distanciar. Trabalho desde os 17 anos sem parar. Não aguento mais, quero deixar meu lugar para os jovens!”, desabafou ao jornal “Libération”, referindo-se aos planos do governo francês de acabar com a aposentadoria aos 60 anos.

Dezesseis países adotaram o euro — o maior e mais ambicioso projeto econômico e monetário da União Europeia. Mas 11 anos depois de sua criação, o principal objetivo da união monetária não foi atingido: uma Europa econômica e politicamente forte. O continente cresce mais lentamente que outras regiões do mundo, e trabalhadores temem competição de emergentes como China, Índia ou Brasil.

“Não podemos destruir a filosofia original da UE” Esta semana, numa reunião na Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), em Paris, o primeiroministro da Eslovênia, Borut Pahor, que vai ter que pedir emprestado ao mercado C 387 milhões para ajudar a Grécia (cada país da zona do euro, com exceção da Grécia, obviamente, terá de contribuir) queixou-se abertamente que seu país tem de concorrer com Brasil, China e Índia, “países onde a dimensão social não é tão importante” e que “não têm os mesmo valores que nós (europeus)”. Ele disse que a Eslovênia vai fazer duras reformas, mas insistiu:

 — Nós não podemos destruir a filosofia original da União Europeia.

A insatisfação nas ruas pôs a classe política europeia contra a parede. Nicolas Sarkozy, impopular, viu seu partido de direita, a UMP, ser derrotado em praticamente toda a França nas eleições regionais de março por uma coalizão de partidos de esquerda que bradou o mesmo discurso: a de que a vida dos franceses está pior.

— Não são só os trabalhadores que têm de fazer o esforço — avisa o recém-eleito conselheiro regional Eduardo Sypel, do triunfante Partido Socialista.

Em Portugal — outro país com a corda no pescoço — o governo socialista de José Sócrates anunciou cortes no seguro desemprego e outras ajudas sociais. E enfrenta a fúria sindical.

— Não é ficar pior agora para depois ficar melhor. Aqui tratase, por parte do governo, de fazer pior para ficarmos pior — reagiu Jerônimo de Souza, o dirigente do Partido Comunista, que está organizando as greves junto com os sindicatos.

A reação furiosa de gregos nas ruas de Atenas — três pessoas morreram em protestos violentos na cidade este mês — levou à consciência, entre os sindicalistas europeus, de que a crise é para valer. Mas muitos acham que paralisar os países em protestos infindáveis só terá um efeito: fazer todos afundarem.

O inglês John Monks, que comanda a Federação Europeia de Trabalhadores no Comércio, representando 82 confederações sindicais do continente, diz que a pílula do aperto e das reformas está dura de engolir não apenas na Grécia, mas em todos os 27 países da União Europeia.

Com exceção dos que estão no topo da pirâmide salarial, diz, o salário médio dos europeus não aumentou nos últimos anos. E são eles quem sempre pagam a conta: o nível de desemprego em alguns países, como a Grécia, chegou a 20%, com os jovens, sobretudo, sendo penalizados.

Líder sindical quer austeridade de curta duração

Nos países do norte da Europa — Islândia foi um exemplo — quando a crise bate, é mais fácil unir as pessoas, de trabalhadores a empresários, para combatêla, diz Monks. Mas nos países como Espanha, Portugal e Grécia, que passaram por longas ditaduras, “é mais difícil”.

— Os países do Leste Europeu, que já passaram por dificuldades maiores, aguentam o tranco mais facilmente.

Por isso ele não vê e nem defende uma revolução nas ruas.

Não há saída, segundo Monks: trabalhadores europeus vão ter de engolir uma dura pílula no esforço para tirar seus países do buraco. Mas sob uma condição: que seja de curto prazo.

— Estamos buscando que sindicatos, se puderem, sejam envolvidos nos planos de salvamento e recuperação — afirma Monks.

— Se temos de sofrer no curto prazo, o que forçosamente temos, que pelo menos tenhamos compromissos de ganhos no longo prazo.

Rejeição ao modelo dos “ricos cada vez mais ricos”

O sindicalista inglês diz que trabalhadores europeus não querem mais o modelo dos últimos 20 anos, em que “os ricos ficaram mais ricos e o fosso entre ricos e pobres aumentou”.

— Desta vez, queremos o compromisso de que teremos uma sociedade mais equânime. Primeiro, alguém vai ter de coletar os impostos dos ricos e dos que estão confortáveis hoje, para se certificar de que eles paguem sua parte na fatia.

A própria OCDE está preocupada com a reação nas ruas que as reformas e o aperto de cinto podem provocar. A organização está finalizando um estudo em 10 países que passaram por duras reformas para mostrar os erros dos que falharam em convencer a população e os acertos dos bem-sucedidos. Segundo o economista-chefe da organização, Pier Carlo Padoan, quem conseguiu apoio popular — como os alemães, com sua impopular reforma trabalhista, ou os italianos, com reforma das aposentadorias dos anos 90 — seguiu pelo menos duas regras.

Primeiro: investimento pesado na comunicação com a população para construir consenso. Depois, criação de mecanismos para compensar os perdedores, geralmente mais numerosos que os ganhadores no início das reformas.

Mas como convencer alguém que tem de trabalhar mais na vida para ganhar menos?

 — Dizendo: se você não fizer isso agora, vai ser pior depois — sentencia Padoan

Fonte: Revista Instituto Humanitas Unisinos

Para criador da "sociologia da ação" ''Brasil pode ser ponte entre Leste e Oeste, Norte e Sul''

''Brasil pode ser ponte entre Leste e Oeste, Norte e Sul''

Para criador da "sociologia da ação" , País tem grande peso internacional e não é mais lembrado pelas suas mazelas sociais

Andrei Netto

O Brasil vive um novo status social internacional que se dissocia de suas mazelas sociais, diz o francês Alain Touraine, de 83 anos, um dos maiores sociólogos da atualidade. Autor de teorias como a "sociologia da ação" e criador da idéia de sociedade pós-industrial -, ele continua atento observador do Brasil e da América Latina. Para ele, o Brasil é a "ponte política" do mundo globalizado. "A Europa é mais importante economicamente que politicamente. O Brasil é mais importante politicamente do que economicamente", disse ele ao Estado.

O senhor diz que o Brasil já é uma potência. Por quê?

Não é só isso. Um país como o Brasil se define melhor hoje por seu lugar no sistema internacional do que por suas características próprias. Hoje estamos menos atentos a uma questão essencial como a desigualdade porque, em nível mundial, somos obrigados a reconhecer que há países que devem desempenhar o papel de pontes entre dois lados, seja Leste e Oeste, Norte e Sul. O Brasil exerce esse papel. A maneira como Lula foi recebido em Davos é sintomática. Ele foi mal recebido em Porto Alegre, para o Fórum Social Mundial, mas não em Davos. Aos olhos do mundo, Lula não é um sindicalista, é o representante de um país-chave, que não joga o Sul contra o Norte. O problema é que o Brasil se lixa para a América Latina. Todo mundo se lixa para a América Latina.

O sr. havia dito que a lógica da Argentina é voltada para o interior, enquanto a do Brasil, para o exterior. O que isso significa?

A Argentina não mudou nada, continua sendo um país que vive da exportação de matérias-primas. Peguemos como exemplo o milho. Quando o preço internacional se eleva, o país exporta mais e o preço do pão fica caro no mercado interno. Então os operários e sindicatos vão para a rua pedir a queda no preço. Quando o preço do pão baixa, os proprietários de terras pedem ao Exército que promova um golpe de Estado. Faz 80 anos que é assim. Já a lógica do Brasil é a da industrialização, a da substituição das exportações e a procura de uma indústria exportadora. A Argentina sempre esteve mais voltada ao Sul. O Brasil está voltado ao mundo.

E qual é o custo deste maior papel internacional do Brasil?

Para que um país desempenhe papel internacional, precisa ter a capacidade de criar símbolos mundiais. A Europa está cheia de símbolos, os Estados Unidos também. A França forneceu a Bastilha e a Torre Eiffel. O Brasil, se você raciocinar verá, produz muitos símbolos. Se eu digo Brasil, o que vem à cabeça? Vão me falar das meninas de Ipanema, do samba, do carnaval, das cirurgias estéticas, muitas coisas importantes. São símbolos que interessam ao mundo inteiro ou 80%.

Mas são símbolos culturais, não políticos.

Sim. Mas não é preciso buscar símbolos políticos. O Brasil nunca foi, por exemplo, liberal. Logo não poderia ter no liberalismo um símbolo. Há livros muito interessantes que mostram porque nos anos 30 o liberalismo não funcionou no Brasil. Desde lá, o Brasil é, como a França, um país que funciona a partir do Estado. Se você olha para o "milagre brasileiro", vê que era dinheiro do Estado.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso disse que o peso político do Brasil é tão grande quanto o da França. O senhor concorda?

Ele disse que o peso do Brasil é maior. É verdade. Precisamos de China e Índia, desta parte do mundo em que há grandes áreas de miséria, sem controle, sujeitas ao risco de guerras étnicas, religiosas. E para se comunicar com essas partes é preciso de pontes. O Brasil é essa ponte. Hoje a posição internacional de um país não é determinada por seus problemas internos, e sim pelo papel que o país desempenha no cenário internacional. São coisas dissociadas. É por isso que durante 20 ou 30 anos falava-se da desigualdade chocante no Brasil e, hoje, não se fala mais. O Brasil é um país que não tem conflitos com os Estados Unidos ou com a China. Por conseqüência, pode realizar este papel de ponte entre Leste e Oeste, entre Norte e Sul. É um papel muito importante.

Como um país como o Brasil, com problemas crônicos de educação, pode estar sendo bem-sucedido no mundo globalizado, tão marcado pelo conhecimento e pela informação?

Vá ao Aeroporto de São Paulo, pegue um táxi e peça para ir a Campinas. O que você encontra como paisagem? Pastagens? Não, usinas muito modernas. Há vários eixos como São Paulo-Campinas que são industriais ou pós-industriais. Veja as pequenas cidades entre São Paulo e Rio, com indústrias importantes. Há um imenso Brasil moderno que tem desigualdades regionais. Mas há 100 milhões de brasileiros que compõem um Brasil moderno, comparável à Itália. 

Fonte:http://www.sociologia.seed.pr.gov.br

'O mundo salvo'. O novo livro de Alain Touraine

'O mundo salvo'. O novo livro de Alain Touraine

O jornal La Repubblica, 22-04-2009, publicou um trecho do novo livro do sociólogo francês Alain Touraine, intitulado "Il mondo salvato" [O mundo salvo, em tradução livre]. A obra é fruto de pesquisas feitas durante os últimos anos. Segundo Touraine, a nossa sociedade está enfraquecida, e só a consciência feminina pode lhe dar força.

"Parece uma época em que as suas lutas perderam visibilidade. Pelo contrário, eu penso que as mulheres são o motor da história". E afirma também: "Só elas sabem superar os velhos dualismos. O sentido da vida, agora, está sempre mais nas mãos delas". A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Nas nossas sociedades envelhecidas, enfraquecidas e ao mesmo tempo adocicadas, surge com força a exigência coletiva de combater os efeitos negativos da modernização, que criou formas de domínio extremas e destruiu a natureza conquistando-a. Nós procuramos recompor uma experiência coletiva e individual que foi lacerada. Trata-se de restabelecer uma relação entre os termos que as fases anteriores da modernização tinham contraposto uns aos outros: o corpo e a mente, o interesse e a emoção, o outro e o mesmo. É esse o grande projeto do mundo atual, o projeto do qual depende a nossa sobrevivência, como repetem os militantes da ecologia política. Mas quem são os atores dessa reconstrução? Quem ocupa o posto central que foi dos operários na sociedade industrial e, em um passado mais distante, dos comerciantes que destruíram o sistema feudal?

A minha resposta é que são as mulheres quem ocupam esse lugar, porque foram, mais do que outros, vítimas da polarização de sociedades que acumularam todos os recursos nas mãos de uma elite dirigente constituída por homens brancos, adultos, patrões ou proprietários de toda espécie de renda e os únicos que puderam pegar em armas. As mulheres foram consideradas, então, como não-atores, privadas de subjetividade, definidas por meio da sua função mais do que pela sua consciência.

Para verificar essa hipótese, escutei vozes de mulheres, um modo de proceder pouco frequente, porque comumente fala-se de vítimas reduzidas ao silêncio, em vez de pessoas desejosas de fazer com que a sua própria voz seja escutada. O método seguido, que deve ser avaliado tanto pelos seus limites quanto pela sua originalidade, consiste em mostrar que a nova afirmação de si por parte das mulheres está direta e profundamente ligada à inversão cultural. Isso torna as mulheres as atrizes sociais mais importantes, mas tem, como contrapartida, o fato de que a sua ação não apresenta as características típicas da ação dos movimentos sociais, entre os quais se compreendia, em um passado ainda recente, o próprio movimento feminista. Consciência feminina e mudança social não são mais separáveis: as mulheres constituem um movimento cultural mais do que um movimento social.

Foi-me criticado o fato de atribuir uma excessiva importância à consciência feminina justamente no momento em que as lutas feministas já teriam perdido a sua radicalidade e a sua visibilidade. Por que escolher as mulheres como figura central da nossa sociedade, quando as desigualdades crescem, a violência se intensifica em nível internacional, e exércitos e terrorismo se enfrentam? Por que não conceder aos grandes debates políticos a importância que merecem, na medida em que procuram manter juntas a unidade e a diversidade, a inovação e a tradição? No fim das contas, aqueles que, homens e mulheres, refutam, do modo mais completo, o meu modelo de abordagem são justamente os que creem que a dimensão do gênero está, pouco a pouco, perdendo importância na vida social.

(...)

A inversão que nos conduz de uma sociedade de conquistadores do mundo a uma sociedade centrada na construção de si levou à substituição da sociedade dos homens por uma sociedade das mulheres. Não há razão para se pensar que a redução precedente das mulheres em um estado de inferioridade deixe o lugar agora à igualdade. As mulheres têm hoje, com relação aos homens, uma maior capacidade de se comportar como sujeitos. Seja porque são elas que se encarregam do ideal histórico da recomposição do mundo e da superação dos velhos dualismos, seja porque colocam o próprio corpo, o próprio papel de criadoras de vida e a própria sexualidade mais diretamente no centro.

Por um longo período, foram os homens que determinaram o curso da história e que manifestaram uma forte consciência de si. Mas, há algumas décadas já, e por um tempo indeterminado (talvez sem um fim previsível), entramos em uma sociedade e vivemos vidas individuais cujo "sentido" está sempre mais nas mãos, na cabeça e no sexo das mulheres, e sempre menos nas mãos, na cabeça e no sexo dos homens.

Resumindo: o importante é escolher. A categoria das mulheres, dado que não se pode dar uma definição inteiramente social dela, deve ser considerada talvez mais fraca do que uma categoria que tem um significado mais especificamente social, econômico ou cultural? Ou, pelo contrário, é preciso considerar que é necessário colocar as mulheres, entendidas como categoria e ao mesmo tempo como agentes, acima dos grupos sociais reais, dos seus interesses e das suas formas de ação coletiva, mais do que os homens, porque capazes de colocar em discussão os problemas e as orientações fundamentais da cultura?

A primeira resposta foi escolhida por muitos, particularmente pelos marxistas, sobretudo hoje pelos homens e pelas mulheres que defendem o multiculturalismo. Obviamente, eu estou entre os que escolheram a segunda resposta. O universalismo, que entendo como um atributo central da modernidade, é sinônimo de defesa dos direitos individuais e dos resultados da ciência. E a importância fundamental do feminismo é que, além das lutas contra a desigualdade e a injustiça, ele formulou e defendeu os direitos fundamentais de cada mulher, ou seja: o direito de ser um indivíduo livre, guiado pelas próprias orientações pessoais e pelas próprias "capabilities", para usar a fórmula de Amartya Sen que Paul Ricoeur bem traduziu com a expressão "poder ser".

Fonte: Revista Instituto Humanitas Unisinos

As três crises

As três crises

"Torna-se evidente que, no lugar de esperar o final da crise financeira e econômica, de um mês para outro nos encontramos diante de problemas econômicos e ecológicos fundamentais que exigem de todos um esforço muito difícil de conseguir. Temos que reconhecer que chegamos ao limite do possível tentando manter nosso modo de vida e nossos métodos de gestão financeira. A soma destes problemas nos situa indiscutivelmente frente a um perigo de catástrofe maior", analisa Alain Touraine, sociólogo, em artigo publicado no jornal El País, 06-01-2010.

Segundo Touraine, "se tivéssemos que dizer hoje qual é o futuro mais provável, o agravamento das crises ou a concepção e a construção de um tipo novo de sociedade baseada no respeito dos direitos humanos da grande maioria, teríamos que responder sinceramente que a hipótese pessimista tem mais possibilidades de se realizar que a otimista, que deposita sua confiança na capacidade dos seres humanos para salvar seu próprio futuro".

A tradução é de Vanessa Alves.

Eis o artigo.

Todos os países situados na zona de influência da Wall Street e a City estão ameaçados. Os Estados Unidos, endividados dos pés à cabeça, desde o Governo ao particular, se encontra em uma situação que alguns consideram sem saída. A City, que tem maior peso na economia britânica que a Wall Street na norte-americana, se viu afetada mais diretamente por causa, em particular, da importância das inversões internacionais da antiga potência imperial.

Chegamos ao limite do possível no nosso modo de vida e nossos métodos de gestão financeira. O pensamento ecológico dá um objetivo positivo de importância vital.

Ao mesmo tempo, para os países da zona euro, a vontade da China e Estados Unidos de manterem suas moedas, o yuan e o dólar, num nível baixo, subvalorizado, também representa uma ameaça direta, pois, inevitavelmente, ataca as exportações europeias.

Paralelamente aos problemas da economia, os da ecologia nos obrigam a tomar decisões muito difíceis. A grande conferência mundial de Copenhague nos deixou uma imagem inquietante sobre a dificuldade de fechar acordos. Dado que os Estados Unidos se mostraram decididos a não fazer nada além de esforços insuficientes, de novo é para a Europa que se pede um sacrifício suplementário. Os países pobres, ou muito menos ricos, exigem que os países do Norte paguem sua dívida -150.000 milhões anuais-, pois, durante anos e anos, somente eles emitiram gases de efeito estufa. O Norte se vê agora ameaçado a mudar seu modo de consumo muito rapidamente. Por outra parte, China concede pouca importância às opiniões do resto do mundo, pois segue extraindo a maior parte de sua energia de carbono. E o tempo passa. Daqui a 2020, teria que reduzir as emissões de CO2, não em 20%, mas em 30%, inclusive 50%, e a Europa teria que alcançar os 80% antes de 2050.

Assim, em poucas linhas, torna-se evidente que, no lugar de esperar o final da crise financeira e econômica, de um mês para outro nos encontramos diante de problemas econômicos e ecológicos fundamentais que exigem de todos um esforço muito difícil de conseguir. Temos que reconhecer que chegamos ao limite do possível tentando manter nosso modo de vida e nossos métodos de gestão financeira. A soma destes problemas nos situa indiscutivelmente frente a um perigo de catástrofe maior.

A isso se deve acrescentar uma terceira crise, a da ação política e, mais precisamente, da expressão política do descontento, as reivindicações e as denúncias. Quem é responsável pela crise? Certamente não se trata de uma crise social, ou seja, de uma crise que enfrenta duas categorias ou classes sociais, por exemplo. Uns pedem que os países do Norte paguem pelo comportamento de seus antepassados. Outros querem defender os interesses e direitos de nossos sucessores e daqueles que vivem - geralmente muito mal - em regiões do mundo distantes da nossa. Ao se estenderem ao longo de um espaço e um tempo quase ilimitados, os conflitos ultrapassam o mundo social; só se podem compreender pela sua oposição a um sistema financeiro e econômico que foi colocado fora do alcance de todas as intervenções sociais e políticas.

Uma oposição assim já não pode se fundamentar na defesa de certa categoria social; deve ter um caráter universalista, já que se trata de defender o conjunto da humanidade. Apelamos aos direitos humanos contra a globalização econômica. Cada vez falamos menos de interesses e mais de direitos. Tal é a transformação principal de nossa vida social. É tão profunda que nos custa percebê-la e, sobretudo, carecemos dos meios institucionais necessários para resolver nossos problemas. As ONGs podem substituir os partidos e os sindicatos? Seria paradoxal dizer que as organizações não governamentais podem substituir os Governos. As ONGs desempenham um papel importante na conscientização da população, mas esta deve dotar-se a si mesma de novos meios de ação propriamente políticos.

Esta maneira de abordar os problemas do nosso futuro não é a dos economistas; não estou certo de que seja a dos políticos, mas deve ser a dos sociólogos, para os quais uma situação é mais o resultado da ação de mulheres e homens que o efeito de umas forças econômicas que impõem à sociedade a procura racional do interesse como prioridade absoluta. No presente caso, isso é ainda mais claro que no geral. Pois, frente a forças econômicas não humanas, a resistência não pode vir da defesa de interesses específicos; só pode vir da súplica dos direitos universais que são pisoteados quando os seres humanos morrem de fome ou se veem privados do trabalho ou liberdade para que os financistas possam seguir aumentando seus benefícios.

Esse levante em nome da defesa dos direitos mais elementares e, portanto, mais universais, é a única maneira eficaz de se opor aos interesses dos financistas puros e duros. É pouco provável que tal levantamento seja produzido, porque a contradição, em minha opinião, entre financistas e cidadãos não parece capaz de proporcionar um objetivo concreto aos protestos populares. É o pensamento ecológico o que dá aos protestos o que eles não conseguem por si mesmos, um objetivo positivo de vital importância: salvar nossa atmosfera, impedir ou limitar as consequências das mudanças climáticas, que podem ser catastróficas.

Mas tudo isso é incerto, num momento em que acaba de fechar o que se chamou "conferência da última oportunidade". Num futuro próximo, nos dez próximos anos, corremos o perigo de ser vítimas de novas crises econômicas, de um agravamento do risco ecológico e de uma confusão política cada vez maior.
Se tivéssemos que dizer hoje qual é o futuro mais provável, o agravamento das crises ou a concepção e a construção de um tipo novo de sociedade baseada no respeito dos direitos humanos da grande maioria, teríamos que responder sinceramente que a hipótese pessimista tem mais possibilidades de se realizar que a otimista, que deposita sua confiança na capacidade dos seres humanos para salvar seu próprio futuro.

Deve-se deduzir uma implosão dos centros econômicos que dominam a vida econômica do mundo há vários séculos? Se os europeus se deixam avassalar pelo eixo chino-estadunidense, que se opõe à reavaliação do yuan e do dólar, este cenário não é impossível.

E assim chegamos à nossa hipótese central: a construção de um novo tipo de sociedade, de atores e Governos, depende antes de mais nada de nossa consciência e de nossa vontade, ou, mais simples ainda, de nossa convicção de que o risco de que se produza uma catástrofe é real, próximo de nós e de que, portanto, temos que agir necessariamente. Mas esta convicção não se forma por si mesma em cada ser humano. Nossos representantes políticos, do mais alto nível, discutem sobre ela e imaginam o que pode acontecer em 2020 o em 2050, numa linguagem que não dá conta suficiente da urgência das decisões a tomar.

Encontramo-nos perante três crises que se reforçam mutuamente e nada nos garante hoje que seremos capazes de encontrar uma solução para cada uma delas. Em outros termos, em vez de sonhar de forma irresponsável com uma saída para a crise que costuma se definir, muito alegremente, em função da retomada dos benefícios dos bancos, devemos tomar consciência da necessidade de renovar e transformar a vida política para que esta seja capaz de mobilizar todas as energias possíveis contra ameaças que são mortais

Fonte: Revista Instituto Humanitas Unisinos

A elite e a oposição à mudança. Entrevista com Alain Touraine

A elite e a oposição à mudança. Entrevista com Alain Touraine


"A crítica das elites é muitas vezes expressão do populismo e do seu tradicional discurso que contrapõe um povo não mais bem definido a uma elite intelectual, apresentada sempre como privilegiada, distante da vida real e escondida atrás de um muro de especialismos".

O sociólogo Alain Touraine marca assim um discurso hoje muito difundido na Itália, assim como na França e ao mesmo tempo alerta contra o uso impróprio de um termo muito ambíguo desde sempre: "No discurso corrente, a palavra 'elite' é frequentemente usada de modo vago, criando confusão evidentemente. No âmbito da sociologia, o uso, introduzido pelos estudiosos italianos, é mais rigoroso. Para os sociólogos, uma elite é um grupo de pessoas que favorece e dirige a mudança em um determinado país. Porém, a elite deve ser diferenciada da classe dirigente, que, pelo contrário, é a que estruturalmente domina e governa um sistema político. Quando se fala de elite dentro de um país, significa que a classe dirigente, por si só, não é mais capaz de endereçá-lo rumo ao futuro. No século XX, não faltam exemplos de elites restritas que marcaram mudanças importantes em seus países. Por exemplo, os primeiros maoístas que levaram a China para a libertação do Guomindang e a instauração do comunismo. As elites são também aquelas que, muitas vezes, se opuseram ao totalitarismo. Não por acaso, lembra-se frequentemente da elite antinazista na Alemanha dos anos 30. Mas no senso comum a palavra, até um certo ponto, começou a mudar de sentido, indicando quem quer ficar ancorado no passado, em nome de um sistema de valores e de privilégios que se contrapõe a um modelo em devir. Por isso, há uma certa confusão".

A reportagem é do jornal La Repubblica, 08-10-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Por que na França se fala muitas vezes de elite de Estado?

São os altos funcionários do Estado que geriram e realizaram a reconstrução da França depois da Segunda Guerra Mundial. É a elite administrativa selecionada nas melhores escolas da república, como a Ena [Ecole Nationale D'Administration] ou a Polytechnique, que dominaram o país no pós-guerra. Hoje, na França, está surgindo uma nova elite, a dos "bobos", os bourgeois-bohèms. Estes possuem um bom nível de renda e de cultura, mas não são reconhecidos na sociedade dominada pela economia e pelo mercado. Consequentemente, muitas vezes sofrem as críticas da elite econômica.

Uma elite que combate uma outra elite?

Na democracia, isso às vezes acontece. Só que, quando uma elite começa a atacar uma outra elite emergente, significa que a primeira perdeu a sua força inovadora. E para procurar conservar os seus próprios privilégios, apoia-se na classe dirigente e na burocracia de Estado. Mas quem quer impedir uma mudança não é mais uma elite. No passado, sempre foi assim. As velhas elites da oligarquia e da aristocracia colocadas em discussão pelos movimentos de massa do século XX, para sobreviver, se aliaram com a burguesia triunfante, comportando-se exatamente como o célebre leopardo de Tomasi di Lampedusa.

Por que hoje a desconfiança com relação às elites está difundida?

A desconfiança não é com relação às elites, mas com relação às incertezas do futuro. As elites promovem as mudanças futuras, portanto dão medo a todos os que preferem o imobilismo. É nesse contexto que se desenvolve o clássico discurso populista de quem quer desacreditar as elites, procurando contrapô-las ao povo. Na Itália, é um discurso que foi muitas vezes utilizado por uma classe dirigente relativamente frágil desde sempre.

Fonte: Revista Instituto Humanitas Unisinos

A crise que irrompe no reino dos indivíduos. Entrevista com Alain Touraine

A crise que irrompe no reino dos indivíduos. Entrevista com Alain Touraine


O eclipse do modelo neoliberal de globalização produz desemprego e uma difusa precariedade, mas não coincide com o retorno ao capitalismo dos estados nacionais. Quando muito alimenta um renovado individualismo que vê mulheres e homens em movimento para afirmar os próprios direitos, um estilo de vida comunitário ou uma identidade cultural e religiosa.

O jornal italliano Il Manifesto publicou, no dia 17-02-2010, uma entrevista com o sociólogo francês Alain Touraine. A entrevista é de Benedetto Vecchi. A tradução é de Benno Dischinger.

As sociedades modernas no centro do cenário do indivíduo. E não poderia ser de outra maneira, porque são plasmadas e dominadas por um princípio de individuação que põe em discussão o próprio conceito de sociedade. Uma tese, esta, que o estudioso francês Alain Touraine apresenta como estilo de um fenômeno de longa duração, iniciado nos gloriosos e dourados trinta anos de desenvolvimento econômico interrompidos pela crise petrolífera de 1973 e acelerado com a globalização. O indivíduo que Touraine apresenta é cônscio dos seus direitos e se “põe em movimento”  para afirmá-los, mas ao mesmo tempo evita toda nostalgia por transformações messiânicas da sociedade. De outra parte,Touraine sempre se definiu um “reformista radical” e vê, no agir político, o âmbito para afirmar a autonomia e a independência de cada um ante o poder constituído. Ao mesmo tempo, não oferece nenhuma leitura apologética deste “novo individualismo”, insistindo, se muito, nos riscos de autorreferencialidade. Alain Touraine está na Itália a convite da faculdade de Sociologia da Universidade La Sapienza de Roma, onde apresentou seu último livro – Pensiero altro [Pensar Outramente. Petrópolis:Vozes, 2009].

Eis a entrevista.

Em seu livro “Pensar Outramente” o senhor sustenta que a sociedade não mais existe, enquanto o indivíduo se tornou a figura que melhor explica as profundas tendências do viver coletivo...

A sociedade não mais existe como instrumento analítico. O individuo ao qual me refiro não deve, no entanto, ser considerado uma via de saída das dificuldades de se representar analiticamente a sociedade. Parto da constatação que no capitalismo existe a forte tendência de individualizar tudo, dos consumos às relações de trabalho. Poderemos falar de uma sociedade de indivíduos, mas, assim fazendo, alimentam-se muitos equívocos. É, portanto, necessário articular melhor as tipologias emergentes de indivíduo.

Existe o “indivíduo consumidor”, para o qual as empresas olham com atenção para melhor afinar suas estratégias de marketing. Há, depois, homens e mulheres que, enquanto indivíduos, querem viver com quem tem as mesmas convicções religiosas ou identidades culturais. Esta é a tipologia do “indivíduo comunitário”. Há, enfim, quem quer afirmar os próprios direitos, considerando-os direitos universais. Aqui encontramo-nos diante de “sujeitos” entendidos iluministicamente.

A co-presença destes três tipos de indivíduos pode ser mais bem compreendida se fizermos referência ao conceito de Anthony Giddens sobre a modernidade reflexiva. O estudioso inglês sustentou que as modernas sociedades capitalistas desenvolveram uma capacidade reflexiva sobre as conseqüências das escolhas tomadas coletivamente. Por isso, tanto a escolha como os procedimentos para aplicá-la são fortemente condicionados por tal capacidade reflexiva. Uma tese que merece ser aplicada ao indivíduo, porque todas as três tipologias que o ilustram manifestam tal “refletividade”. Assim, os consumidores não são presas inermes das estratégias de marketing, mas desenvolvem uma capacidade própria de autonomia do mercado. O mesmo se pode dizer dos “indivíduos comunitários”, que não consideram sua comunidade eletiva uma jaula”.

Há, no entanto, tipologias que podem ser atravessadas pela mesma pessoa. Um indivíduo pode autorrepresentar-se como consumidor, mas também como  expoente daquele comunitarismo que se orienta pelo conceito “eu - nós”, ou então, como sujeito portador de direitos.

Elas me parecem, ao invés, tipologias impermeáveis. Por mais sugestiva que seja a tese de Giddens sobre a modernidade reflexiva, isso não elimina o risco que tanto o indivíduo-consumidor, como o indivíduo comunitário e o sujeito se fechem em si mesmos. Além de reflexiva, nossa sociedade é uma sociedade simbólica. Quanto ao passado, os indivíduos produzem e controlam a produção dos símbolos que consideram relevantes em sua vida. Podemos dizer que cada um deseja ser reconhecido também como produtor de símbolos. A luta pelo reconhecimento pode conduzir a um fechamento com relação ao Outro, àquela impermeabilização que vejo operante na realidade contemporânea.

Além da morte da sociedade, o senhor sublinha o eclipse dos movimentos sociais...

Mais do que eclipse, existe a crise do paradigma que via os movimentos sociais como expressão de determinados interesses econômicos, de grupo ou de classe. A  muitos anos eu sublinho a relevância dos temas culturais e da identidade nos movimentos sociais. Mas, suponho que você quisesse perguntar-me se também esta leitura dos movimentos sociais tenha entrado em crise. Bem, creio que tenha havido uma mudança importante. Quem participa dos movimentos sociais não está interessado apenas em qualificá-los do ponto de vista da cultura ou da identidade que quer reconhecimento. Entra também um forte componente de afetividade, de cuidado de si e do outro, como emerge, por exemplo, dos movimentos feministas.

Nestes dias, encontrei alguns homens e mulheres que vocês na Itália chamam o “povo viola”. Ficaram golpeados pelo pathos, pela insistência sobre o cuidado da democracia, da constituição política, do elo social. Esta afetividade é que é a verdadeira novidade. Mais do que falar de movimentos sociais, podemos dizer que há homens e mulheres dispostos a pôr-se a caminho.

Esta idéia de pôr-se a caminho, em viagem, é muito zapatista, um movimento que o senhor estudou...

Os zapatistas realizaram uma ruptura com as velhas concepções da guerrilha latino-americana. Preferiram a expressão “caminhar, indagando”. Nisto prefiguravam que não existia uma realidade social organizada e pré-definida, mas homens e mulheres dispostos a pôr-se, como você diz, em movimento. De formas diversas, acontece também junto a nós que a gente se ponha a caminho para afirmar direitos, identidades culturais, estilos de vida”.

O estudo das sociedades sempre se nutre de imaginação: uma imaginação com o fim de conceituar realidades, fenômenos não contemplados pelo acúmulo analítico herdado do passado. Há dois anos aconteceu um imprevisto, a crise econômica. Não lhe parece que este fenômeno inesperado ponha em discussão suas tipologias sobre o indivíduo?

Segui com muito interesse as discussões sobre a incapacidade dos economistas de prever a crise. E me impressionou a explicação dada. Para alguns, o encontro da perspectiva neo-keynesiana com a neoclássica incentivou o uso de modelos matemáticos que não tinham nenhuma relação com a realidade.

Mas, além desta explicação, houve economistas, não suspeitos de extremismo, que, ao invés da possibilidade de crise, escreveram sobre ela. Refiro-me a Amartya Sen, Paul Krugman e Joseph Stiglitz que, para explicar o que depois efetivamente aconteceu, usaram ordens do discurso que tinham poucos pontos de contato com a economia. A crise, a meu ver, não põe em discussão esta centralidade do indivíduo. Existe antes o risco que ela acentue os riscos do fechamento, a impermeabilização de cada uma das diversas tipologias das quais falei acima.

No entanto, existe uma crise que tem efeitos telúricos, tanto social como politicamente. O senhor sustentou que a globalização era um fenômeno irreversível. Pergunta de advogado do diabo: não é que a crise tenha posto em movimento um fenômeno de desglobalização?

Realmente não estou convencido disso. O que entrou em crise é o modelo de globalização neoliberal da hegemonia estadunidense.

Não pode, todavia, negar que a crise ponha em discussão o equilíbrio entre dimensão global e dimensão local, onde o global comandava sobre o local?

Prefiro falar de dimensão ‘glocal’, embora seja um termo pouco atraente. Nos anos passados, os teóricos neoliberais da globalização sempre falaram de exautoração, se não de fim do Estado nacional. Era uma tese errada. O Estado-nação sempre desempenhou papel importante na globalização. Não só de interface entre dimensão global e dimensão local, mas como processo de adaptação glocal. O Estado foi importante porque constituiu o âmbito de manutenção da democracia ante o poder da economia. Além disso, procurou salvaguardar aqueles direitos sociais de cidadania que caracterizaram as sociedades capitalistas. A crise pode ter efeitos telúricos não no que se refere à globalização, ou seja, àquela estreita interdependência entre economias e realidades sociais nacionais, mas precisamente para a democracia. Um dos efeitos pode ser, ao invés, o emergir de estados autoritários e antidemocráticos no cenário global.

A crise significa também desemprego. Na França assistimos a conflitos em que operários seqüestravam dirigentes de empresas, ameaçando fazer explodir os estabelecimentos. Além da dramaticidade da situação, emergia uma realidade operária que podia ser mais bem explicada com o mecanismo da revolta dos poderes. O que pensa disso?

Também segui com interesse alguns conflitos operários na Itália, onde os trabalhadores andavam sobre os telhados das fábricas: quando existe crise, o movimento operário sempre está em dificuldade e talvez possa escolher formas de luta que pertençam à cultura política do próprio movimento. Sempre foi assim. Mas, devemos considerar também o fato que a globalização neoliberal significou aumento da precariedade. Talvez estejamos assistindo a formas de luta de um movimento operário em que a maioria dos trabalhadores viva a precariedade. No momento, são espetaculares, mas não violentas. Não é dito que com a crise as coisas não mudem.

Fonte: Revista Instituto Humanitas Unisinos

O neoliberalismo está levando a União Europeia ao fracasso, afirma Touraine

O neoliberalismo está levando a União Europeia ao fracasso, afirma Touraine

“O modelo ocidental está sendo sacrificado nas mãos de especuladores vorazes e bancos super-poderosos. É imprescindível devolver ao trabalho a parte do produto social que lhe foi retirado pelo capital e restabelecer o vínculo saudável entre a função financeira e as funções de produção”. A opinião é do sociólogo Alain Touraine (foto) em artigo publicado no Clarín, 31-05-2010. A tradução é do Cepat.

Segundo Touraine,  “a nova etapa de construção europeia tropeça apenas em um obstáculo: o neoliberalismo, cujos centros estiveram e estão nos Estados Unidos e no Reino Unido, países que tiraram da Europa toda autoridade e a transferiram para os bancos”.

Eis o artigo.

As recentes críticas de Obama à União Europeia são compartilhadas por um grande número de europeus. A participação da União Europeia nas decisões que impediram que a crise atual degenerasse em catástrofe foi quase invisível, ainda que tenham tomado iniciativa, a título individual, países como Reino Unido, Alemanha e França. Os europeus demonstraram que não queriam desempenhar um papel ativo na política mundial ao escolher como presidente e como ministra de Assuntos Exteriores da UE personalidades pouco conhecidas e, no que diz respeito à segunda, pouco preparada para assumir esse papel.

Tudo se desenrolou como se os europeus tivessem decidido deixar que os EUA continuassem se ocupando dos assuntos mundiais, enquanto eles se dedicavam à tarefa quase infinita de terminar sua integração, agora mediante a incorporação dos países balcânicos, sem que se quer examinar seriamente os sólidos argumentos apresentados por muitos favoráveis a entrada da Turquia, país que, sentindo-se indesejável na Europa, esforça-se para se voltar às sociedades islâmicas.

Se considerarmos que o frágil crescimento previsto para a Europa num futuro provavelmente prolongado irá minguar sua presença no mundo, no qual numerosos países caminham a passos largos, cabe perguntar se a Europa não entrou num declínio que será doloroso a partir da geração de nossos netos ou de nossos bisnetos. Um objetivo que é imprescindível alcançar é adotar, na economia e no social, uma política que rompa com o neoliberalismo que nos têm arrastado para a grave crise que vivemos.

No terreno internacional, o mais urgente é escolher um plano de ação comum com países do mundo islâmico, mas que não sejam árabes, porque estes estiveram colonizados durante muito tempo e seus Estados são frágeis e quase sempre autoritários. Se a Europa quer demonstrar que pode atuar no sentido oposto ao que escolheu os Estados Unidos quando atacou o Iraque, tem que acolher a Turquia e escolher uma política de reorientação do mundo muçulmano e eliminar as posições carregadas de ódio que conduziram ao terrorismo.

Muitos pensam, assim como eu , que a teocracia iraniana e sua frustrada política podem ser derrotadas por uma oposição interna que se veria reforçada se os ocidentais se mostrassem dispostos a apoiá-la. Uma coalizão europeia, turca e iraniana nesse país, uma vez que a oposição interna houvesse conseguido o seu objetivo, poderia por fim ao enfrentamento atual entre o mundo islâmico e o Ocidente.

Cabe pensar que o êxito dessa nova política permitirá o reconhecimento mútuo entre um Estado palestino e o Estado de Israel, sem o qual, o retorno da paz não é possível. A um nível ainda mais vagamente definido, é necessário que a Europa assuma a direção de um combate contra os regimes autoritários que têm condenado grande parte de sua população à violência interna, ao autoritarismo e à guerra. A Europa tem se demonstrado demasiada débil para ser considerada candidata a essa hegemonia mundial que ficou nas mãos dos Estados Unidos.

No que se refere às realidades econômicas e sociais, é preciso restabelecer prioridades que possam levar a uma defesa mundial contra os ataques dos especuladores. Em todo o mundo se experimenta a necessidade de devolver ao trabalho a parte do produto social que foi retirada pelo capital e, mais ainda, de restabelecer o vínculo entre a função financeira e as funções de produção, impedindo ao mundo financeiro lançar-se de novo à busca exclusiva do seu máximo benefício e afastando-se do seu papel de investimento e crédito.

Pode-se pensar que o mundo europeu está naturalmente orientado para tais objetivos. Não construiu um ambicioso sistema de seguridade social? Não sonha com uma reconciliação e um co-desenvolvimento com os países que colonizou? Não mostrou um duplo apego à existência de Israel e a um Estado palestino? De onde vem, pois, este fracasso em todos os aspectos da Europa, sua perda de crescimento, o desaparecimento de seu papel mundial e sua impotência para apoiar as democracias?

Nós podemos buscar as causas nas “debilidades” da Europa. Mas, em vez de ser a sua debilidade material o que acarreta a sua perda de confiança em si mesma e em seu futuro, é essa perda de confiança que leva a impotência da Europa e inclusive a sua reação ao se propor novos modelos e ao mundo.

Essa impotência apenas explica-se pela diversidade e inclusive as contradições dos interesses nacionais na Europa e a construção desta. Por acaso sua construção não se baseou, antes de mais nada, na vontade de pôr fim as guerras internas, suicidas e destrutivas de uma Europa presa aos regimes militaristas e totalitários? Por isso, a Europa consciente de ser a autora de sua própria desgraça, e querendo atuar mais sobre si mesma do que sobre o mundo, encerrou os interesses nacionais em regras econômicas, jurídicas e inclusive políticas comuns. A obra empreendida teve êxito e a queda do império soviético permitiu aos países da Europa central e oriental restabelecer os seus vínculos históricos com a Europa do oeste.

Mas agora, quase cumprida essa grande tarefa, a Europa deve se voltar para o mundo e recuperar a influência que seus próprios erros a fizeram perder. Esta nova etapa de construção europeia tropeça apenas em um obstáculo: o neoliberalismo, cujos centros estiveram e estão nos Estados Unidos e no Reino Unido. Países que lhe tiraram toda autoridade e a transferiram para os bancos, cujo poder sobre as empresas aumenta.

Os Estado Unidos também estão submetidos a esse capitalismo financeiro, mas tem unidade política e uma forte confiança em si mesmos, o que faz dos europeus – e quem sabe também do Japão –  as vítimas mais graves da crise atual.

Como podem os europeus, que inventaram o espírito das Luzes e a crença na razão e nos direitos humanos, aceitar passivamente aquilo que corre o risco de se transformar no fim do modelo ocidental, ou seja, da associação do progresso científico e do técnico, a destruição dos privilégios e o reconhecimento dos direitos fundamentais de cada um?

Fonte: Revista Instituto Humanitas Unisinos